A rede da inovação e do desenvolvimento sustentável
O PORQUÊ DA PRODUÇÃO LOCAL E USO DO ÁLCOOL COMO COMBUSTÍVEL NO MEIO RURAL
Juarez de Sousa e Silva
Roberto Precci Lopez
Sem considerar outros pontos de igual importância para justificar a produção e o uso do álcool combustível no meio rural, podem ser enumerados:
Diante do exposto, mostraremos nessa e nas etapas seguintes, a viabilidade técnica e econômica da geração descentralizada de energia (mecânica, térmica ou elétrica) por meio de etanol de cana-de-açúcar produzido na fazenda. É importante mencionar que, independentemente da forma com que a energia será produzida (isoladamente ou em associação), os produtores rurais têm potencial para atender às demandas próprias e das comunidades vizinhas.
Antes de entrar nos detalhes referentes à produção e utilização do álcool de fazenda, é bom lembrar que os apelos pela utilização de energia renovável começaram a ganhar força na década de 1970, por ocasião da primeira e da segunda crise do petróleo, ocorridas em 1973 e 1979, respectivamente. Naquele período iniciaram-se, em várias partes do mundo, pesquisas com fontes renováveis de energia com o único objetivo de reduzir importações e aliviar a balança de pagamentos de países dependentes de petróleo. Os apelos ambientais na época eram lembrados apenas em acidentes envolvendo petroleiros. Recentemente, com o derramamento causado pelo acidente com uma plataforma no golfo do México e com o vazamento na bacia de Campos, o assunto tem aparecido com mais destaque.
De maneira geral, os impactos ambientais observados nos últimos 30 anos, decorrentes da utilização dos combustíveis fósseis, mostram a concepção de um novo modelo de desenvolvimento que tem como base a SUSTENTABILIDADE; nesse contexto, as fontes de energia renováveis ganharam força junto a ambientalistas, pesquisadores e governos de alguns países. Prova disso foi a criação, a partir de 1994, dos centros de referência em energia eólica/solar, de biomassa, de pequenas centrais hidrelétricas (PCH) e o programa de incentivo às fontes alternativas de energia elétrica (PROINFA) em 2002.
Particularmente, o Brasil é conhecido por possuir um dos maiores índices de utilização de energia renovável em sua matriz energética. Em 2007, quando a média mundial foi de 12,9%, o País mostrou oferta interna de energia renovável em mais de 45%. No cenário externo, o Brasil aparece, pela sua experiência e potencialidade de recursos naturais energéticos, como promissor exportador de energia com base no etanol de cana-de-açúcar. Paradoxalmente, em 2011 importamos um bilhão de litros de etanol, à base de milho, dos Estados Unidos.
Apesar de o País apresentar números que impressionam, como a maior frota de veículos a álcool do mundo e 75% da energia elétrica gerada de origem renovável, observa-se, ainda, a existência de regiões atrasadas e sem disponibilidade de energia. Embora o programa Luz para Todos tenha apresentado significativo ganho social, os impactos econômicos sobre as comunidades assistidas, em termos de geração de emprego e renda, têm sido pequenos devido à baixa potência elétrica disponibilizada e às características locais. Os maiores impactos observados com esse programa foram na aquisição de bens de consumo da linha branca, como geladeira, televisor e aparelho de som.
Disponibilidade tecnológica existe
A Universidade Federal de Viçosa (UFV), desde a década de 1980, vem desenvolvendo trabalhos com microdestilarias para produção de álcool em fazendas. Nossos estudos mostram que não é difícil produzir um litro de etanol na fazenda a custos inferiores a R$ 0,80. Como na microrregião de Viçosa-MG um litro de álcool combustível foi comercializado, nos postos de abastecimento, a um preço acima de R$2,50, a produção local de álcool, para substituir a gasolina, o óleo diesel ou o GLP, nas atividades da fazenda, pode ser vantajosa e lucrativa.
Com alocação de partes dos recursos da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) e da Conta de Consumo de Combustíveis Fósseis (CCC) para projetos com utilização de fontes de energia renováveis, as concessionárias, antes acostumadas a gerir projetos de grande vulto, encontram-se agora diante da necessidade de implantação de projetos de pequeno porte. Uma prova disso foi o Microgerar – 2º Seminário e Mostra de Microgeração Distribuída, ocorrido em 4 e 5 de maio de 2010 em São Paulo. O grande desafio é que, no Brasil, pesquisas com utilização de fontes de energia renovável para esse propósito ainda são incipientes e escassas.
Alguns trabalhos relatam a substituição parcial do óleo diesel por óleos vegetais em comunidades isoladas. Esse sistema, viável em localidades onde o preço do óleo diesel é elevado, apresenta, em relação ao uso do etanol em motores de ciclo Otto, desvantagens devidas ao acúmulo de resíduos na bomba injetora, à carbonização das câmaras de combustão e às frequentes trocas de óleo, que resultam em maior custo de manutenção.
Segundo Fonseca (2007 citado por INOUE, 2008), os custos com manutenção, em um ensaio com motor utilizando óleo de dendê, foram o dobro dos custos com óleo diesel. Outro inconveniente da utilização do óleo diesel refere-se ao fato de muitas comunidades situarem-se em área de preservação ambiental; portanto, incompatível com a utilização de um combustível poluente.
Não foi encontrado, na literatura consultada, estudo a respeito da utilização do etanol como fonte de energia para suprimento de energia elétrica em sistemas isolados ou localidades não servidas por energia elétrica. Assim, a geração descentralizada constitui uma situação nova para as concessionárias acostumadas com o sistema convencional de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica. Nessa modalidade, o custo de atendimento e as tarifas de manutenção não podem ser praticados nos valores habituais, o que pode incorrer em novos custos administrativos e operacionais para a empresa (DI LASCIO; BARRETO, 2009).
Para solucionar problemas, a figura do produtor independente de energia, criada com a desregulamentação do setor elétrico, juntamente com os autoprodutores de energia, poderia assumir essa tarefa. A geração de autoprodutores em 2007 apresentou crescimento de 13,1% em relação ao ano anterior. A percentagem não foi maior por falta de incentivo, divulgação e flexibilização da legislação para outras fontes de energia renovável, como a proveniente do álcool de cana-de-açúcar.
De acordo com Rosa (2007), seja qual for o tipo de energia renovável, todo programa relacionado com esse assunto deve proporcionar:
a) Desenvolvimento sustentável da localidade por meio de aplicação de técnicas de planejamento e gestão participativos.
b) Conscientização sobre o uso racional da eletricidade e dos recursos naturais.
c) Obtenção de comprometimento da comunidade na operação e manutenção do sistema, inclusive na condição de autogestora.
d) Coordenação com políticas públicas e parcerias com a iniciativa privada para geração de emprego e renda local.
REFERÊNCIAS
DI LACIO, M. A.; BARRETO, E. J. F. Energia e desenvolvimento sustentável para a Amazônia rural brasileira: eletrificação de comunidades isoladas. Brasília: Ministério de Minas e Energia, 2009. 190 p.
INOUE, G. H. Uso do óleo vegetal em motor estacionário de ciclo diesel. 92 f. 2008. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, MG.
ROSA, V. H. da S. Energia elétrica renovável em pequenas comunidades no Brasil: em busca de um modelo sustentável. 2007. 440 f. Tese (Doutorado) – UnB, Brasília. Disponível em: a href="http://www.aneel.gov.br/biblioteca/trabalhos/trabalhos/Dissertacao_Victor_Hugo.pdf">http://www.aneel.gov.br/biblioteca/trabalhos/trabalhos/Dissertacao_...>. Acesso em: 11/03/2010.
Na próxima etapa abordaremos: POTENCIALIDADE PARA GERAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA COM ÁLCOOL PRODUZIDO NA FAZENDA
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